(Português) Que grande Pardal!

(Português) Escrevo sobre o Professor Pardal num dia quente de agosto em que estou a ruminar – sim, a ruminar, o que certos animais fazem e o homem na sua soberba intelectual ignora e tão bem lhe fazia – sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas. Qualquer semelhança com alguém da vida real não é, porém, mera coincidência.

Íntimo do Pato Donald, figura hilariante vocacionada para o dinheirinho, o Professor Pardal, é um famoso inventor, cheio de boas intenções, não é? Ao lado do Lampadinha, que ele próprio inventou, colocando-lhe uma lâmpada onde seria o lugar da cabeça, o Professor Pardal é um astro cintilante das histórias aos quadradinhos em todo o mundo e para todas as idades e tempos. Ainda hoje.

Fosse o Professor Pardal um homem de leis, por exemplo advogado, decerto teria inventado (na versão portuguesa, claro) um dos maiores gabinetes de referência global, também nos PALOPS, provavelmente o maior escritório de advogados parido cá na terrinha, mas, claro, de âmbito internacional. Com uma grande chaminé, porventura, no lugar dos miolos para evacuar o imenso saber. Como ninguém lhe pediria contas, era fazer de conta que dominava as leis por ter lambido umas folhitas de qualquer sebenta em qualquer universidade que dá títulos pelo telefone. Seria muito giro, não é?

Curioso, seria, também, ver o Professor Pardal a acumular a interpretação das leis, de borla e capelo, com o sindicalismo. Imagine-se que era vice-presidente de qualquer coisa chamada de sindicato. Estou a imaginar, apenas, porque – houvesse um Estado decente – tal não passaria pela cabeça nem de uma minhoca, nem de qualquer outra figura específica dos desenhos animados.

Que longe vai a honra de ser advogado!

Que sindicalismo é este que anda de Maserati e é patrão?

Ainda existe uma instituição de utilidade pública designada Ordem dos Advogados?

Fui um advogado feliz. Ao iniciar-me na vida profissional, encontrei na Comarca do Porto, no início dos anos 80, advogados, ilustres sábios, irrepreensivelmente dignos da sua profissão cientes do perigo e da a de ser advogado. Também magistrados de altíssima craveira intelectual e moral. Com uns e outros cresci e tentei aprender a ser advogado. Vinha de Coimbra onde a formação universitária na área de Direito era duríssima, exigente, de alto nível (certos doutoramentos, hoje, ficarão qualitativamente atrás de uma licenciatura de então – digo-o com o ingénuo conhecimento de quem esteve nos dois sítios). Abri banca no Porto e conheci, depois, a “advocacia de negócios” em Lisboa. Também em França e na Alemanha frequentei grandes advogados, notários e magistrados; dei aulas em duas universidades onde de resto, terei pressentido a tragédia que havia de acontecer quando muitos desses alunos chegassem à vida real.

Sou, hoje, um advogado sem ilusões, mas não desiludido! A tragédia antevista está aí em todo o seu esplendor.  Pulula a advocacia proletária ao lado da de grandes negócios com o Estado. A da batota da violação sistemática de segredo de justiça no mercado da comunicação social onde aquela arrendou casa de férias. A ficção científica, patrocinada com dinheiros públicos que dá pelo nome de apoio judiciário, tornou-se uma burla que ninguém quer ver.

O sindicalismo, que esbraceja num leito de moribundo, tem necessidade de gritar cada vez mais alto e, para isso, busca a pretensa retórica de ativistas encartados, externos e exteriores ao trabalho, de gente que não tem valores, nem princípios, nem dignidade.

E, no meio disto tudo, as Ordens Profissionais ou hibernaram ou confundiram-se já com os sindicatos. Vale tudo. Que vergonha!

Que vivam os pardais, pois, que só aparecem inteligentes porque somos, os outros, estúpidos e cobardes cidadãos.

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