(Português) O relativismo da espécie humana ou a necessidade de pensar um mundo pós-antropocêntrico

(Português) O ‘’Conde’’ – assim se chama o pastor alemão que conviveu comigo mais de treze anos – escondeu-se entre arbustos, um dia destes, para exalar os últimos sopros de energia, da pouca que mantinha já há algum tempo. Afastou-se de tudo e de todos por escolha sua e pôs-se a morrer. Teve uma mortalha a cobri-lo e a casa ficou mais vazia, com mais espaço, mais sombras.
Contam os meios de comunicação social que, nesta altura do ano, são abandonados nas ruas, pelos seus donos, cada vez mais animais domésticos, alguns – diz-se – atirados para o lixo como copos de plástico depois da bebedeira. E lembro-me do que um amigo me havia referido em relação às “enchentes” que aconteciam (acontecem) nos meses de férias no hospital que dirigia: os mais velhos (em África “mais velho” é o mais sábio e, logo, o mais respeitado. Por cá é lixo tantas vezes) eram lá deixados, em suposta urgência, para os seus próximos irem de férias sem entraves e de consciência tranquila (?).
O destino dos abandonados é conhecido; o dos que deixam de estar por cá, não o é, felizmente…Dramático é o tentar perceber os conflitos de interesses que se jogam naquelas ocasiões e, por aí, chegar à conclusão do quanto se exprime no humano egoísmo, numa sociedade hedonista e que acaba por ser decisivo até nas escolhas mais simples.
Vivendo num mundo antropocêntrico havemos de colher dele cada vez mais, porém, a necessidade urgente de entrar noutro, pós-antropocêntrico, numa nova cultura humana, em que o relativismo da espécie humana seja assumido frontalmente. Como costuma dizer-se na política, há vida para além do Homem e é tal vida que também clama por atenção quando todos se acham com direito a tudo, mas pouco ou nada estão dispostos a dar – de si nas suas relações societais. E já não me refiro, sequer, a dar aos outros o que é desses outros, e não nosso e que de algum modo lhe negamos.
Colou-se à nossa pele, desde tempos imemoráveis, a convicção de que nós, humanos, constituímos uma espécie separada de todas as outras e, de resto, também da natureza. Trata-se de uma certa forma de dominação que decorre da ideia de que somos os únicos proprietários do mundo, de que podemos usar dele e abusar como quisermos. Hoje, com os conhecimentos que a ciência nos disponibiliza, talvez seja imperioso mudar de posicionamento, mas não parece fácil para o culto reinante do hedonismo selvagem que abraçamos. As questões em causa têm obtido algum espaço de reflexão e diversificado ativismo no âmbito do que se tem designado por movimentos ecológicos. Mas é tudo ainda tão residual, marginal! Ou, então, tão fortemente ideológico que às vezes até parece que é preciso “matar” os humanos para valorizar a ecologia. Vemos os mega fogos florestais, mas vivenciámo-lo como, pouco mais ou menos, folhetins televisivos e raramente como sintomas de uma sociedade doente. Alguns até afirmam – e tudo assim ficará resolvido – que não haverá mais desses fogos quando já tudo tiver ardido. E daí, ao negacionismo da gravíssima crise ecológica atual é um simples passo.
O problema maior é que com a floresta também arde uma parte de nós (V.Joëlle Zask, Quand la forêt brûle, 2019).
Volto ao início.
A memória que me ficou do “Conde” é a de que algo de mim com ele se foi, mas de que, também, muito dele ficou. E não me servirei disso para recordar fundamentalmente o passado, mas para antecipar o futuro. Porque neste acredito.

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