(Português) Do poder da família à família no poder

(Português) … e ninguém sai a terreiro para denunciar a decrepitude mental de quantas andam por aí a rasgar as vestes de indignação pelo facto de, na vida política ( e partidária) os laços familiares terem naturalmente peso quando se escolhem aqueles com quem se trabalha?!

Trata-se de uma campanha e de uma narrativa fácil, presentemente sobretudo eleitoralista, que enche páginas de jornais e tempos televisivos e, também, rende acenos de alguns invejosos e despeitados das margens da política (mesmo que se digam do centro) que apreciam o fácil e prescindem de pensar os problemas reais do nosso país. É preciso ter topete!

Está em perspetiva, ao que parece, a criação de um “crime” político novo assente na família: se tens família, se prezas os laços familiares, se acreditas na mais valia dos teus para te acompanharem num projeto (seja na política, seja numa empresa, ou em qualquer empreendimento humano) toma cuidado! Tal será, para alguns, suficiente para avançar com uma grave acusação – esta mais grave, porque ética – de endogamia ou de nepotismo hereditários. É assim como ter sida, ou uma qualquer doença venérea. A condenação decorre do estatuto e das relações familiares e não do caráter, do saber da pessoa, dos comportamentos concretos, de factos reais e provados, enfim. Diz-se que “só dá honra, quem tem honra” e, aqui, poder-se-á concluir que só a falta de caráter e de princípios dos acusadores levará a tais suspeitas preventivas.  Vêm os outros como eles próprios o são, talvez.

Este tosco “princípio de precaução” político – partidário, trouxe-me ao espírito a razão por que um saudoso amigo tinha sempre à sua volta uma farmácia inteira de medicamentos: não estava doente de nada … mas poderia vir a ficar. E, nessa expectativa, passava o tempo nas farmácias, na leitura das bulas dos medicamentos e na interpretação livresca de doenças e seus sinais. Lida e ouvida  a verborreia que corre, sobre o assunto pelos meios de comunicação social – ora de sua lavra, ora neles convenientemente plantados – e tendo cuidado de analisar o pertinente contexto, é óbvia a triste conclusão a que se chegará: é tudo resultado do miserabilismo partidário em que o país ( e o Ocidente) se deixou envolver na sua tresloucada corrida contra a parede. E alguns têm tantos telhados de vidro que deveriam pensar duas vezes antes de atirar pedras. Nisto não se veja, porém, tolerância alguma com comportamentos duvidosos ou ilícitos, civis ou penais. Estes deverão, sempre – e rapidamente – ser sancionados judicial e politicamente, nos adequados altares institucionais.

Temos, todos, que trabalhar muito para esconjurar os fantasmas que pretensas e pretendidas “fraturas ideológicas” provocaram (com graves consequências) na ideia de família. E que, outra vez, a estão a interromper enquanto sede primeira da beleza, da luz e do amor. Sem preconceitos e sem ideologias crastantes num regresso à sua matriz  humana radical em liberdade. Os laços familiares não podem, em vão, ser utilizados para destruir uma pessoa, seja na política, seja na empresa, numa associação ou qualquer outra instância da vida relacional. O que é condenável é o nepotismo enquanto fator de injustiça e não é, como qualquer pessoa de bem sabe, a família que a tal serve de alavanca, mas outros tipos de relações mais bem subtis e interesseiras.

Tenho por seguro quão lamentável é a utilização da família ___ dos laços familiares “tout court” para fazer campanha eleitoral, mas compreendo os que tal fazem: uns para lhes dar mais uma machadada; outros porque andam no mundo por ver andar os outros sem tino e sem destino: vale tudo para ganhar eleições. Triste.

Afinal “Todas as famílias felizes são iguais. As famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira” (Léon Tolstoi, Anna Karénina).

 

 

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