(Português) Crise Escatológica?

(Português) Um novo ano se está a iniciar e é comum desejarmo-nos mutuamente, por isso, muitos sucessos para esse novo tempo. Também se fazem promessas e traçam caminhos para alcançar objetivos de vida pessoais. Mas, quanto à sociedade que é a nossa, ao nosso viver em comum, o que ambicionamos? Quais são os nossos compromissos para o novo ano? A resposta que subliminarmente nos chega é curta e, de há muito, invariável: trabalhar menos e ganhar mais e exigir ao Estado a prestação de tudo o que nos falta. Quanto a compromissos com os outros, com a sociedade, com o mundo da vida…

Claro que tal generalização é imprópria, porventura abusiva em algumas situações e perante certas pessoas. Será assim como dizer que, em Portugal, a gestão é fraca (“fraquíssima” disse um Ministro). É verdade, mas não cobre toda a realidade e a generalização tira força às conclusões. Daí que haja argumentos para todos os lados e, no fim, cada qual fica na sua e os impasses e obstruções permaneçam.

Abordar o nosso estar em sociedade tem, obviamente, que ver com a atividade política e muito, também, com o pensamento político, a doutrina e a ideologia política e com todos os outros conhecimentos que lhe são conexos. E não deixará de ser relevante falar de crise escatológica para tentar evidenciar como caminhamos sem rumo certo, desconhecendo-nos e ao destino possível, aos fins a atingir pela nossa sociedade política. Veja-se o que acontece quando, como agora, todas as preocupações político-partidárias se viram para a feitura do Orçamento de Estado (O.E) para 2020. No Parlamento – e fora dele – a luta é por maior satisfação de interesses de grupos e clientelas, mais dinheiro, apenas.

Seria anormal que assim não fosse num sistema político partidário democrático. Seria imperioso, porém, que se fosse mais além, num outro quadro mental, olhando, perspetivando e prospetivando o que queremos ser, enquanto comunidade política, mais do que o que poderemos, cada qual, gastar mais nas catedrais de consumo. Quando os nossos antepassados quiseram viver num país soberano (1143) lutaram pela independência; quando ambicionaram descobrir o mundo, lançaram-se ao mar desconhecido (1415), quando sentiram a necessidade de liberdade e de igualdade envolveram-se nas lutas liberais (anos 1800) e na construção de um Estado constitucional. Houve sempre, também, os “Velhos do Restelo”, mas o sonho falou mais alto.

O tempo atual, líquido, é marcado por se querer tudo e já, lutando e conflituando no que não será mais do que uma feira de egoísmos imediatista. O Estado – e a sua organização política – não favorecem outro caminho na base, aliás, de uma Constituição da República generosa em direitos, mas parca em deveres. E, sublinhe-se, não há direitos nessa Lei que não tenham plena justificação, antes até escasseando. Mas, os deveres?

Uma nação não será nunca relevante no mundo aldeia global se se satisfizer apenas em ter instituições democráticas, base de tudo o mais, é certo. Há que assumir coletivamente um propósito: o que é que queremos?  Depois: como é que chegaremos até lá; e, por fim: porque é que o queremos? De um modo mais assertivamente político isto tem a ver com as funções do Estado, a sua delimitação e a sua abrangência. Todos falamos da reforma do Estado, mas ninguém saberá o que dela quer. Por isso não ata nem desata.

O nosso tempo tem necessidade urgente de esperança, de fraternidade e de compromisso. A resposta também é política – ou exigimos tudo ao Estado (que nos sufocará depois) ou assumimo-nos como construtores de nós próprios e da nossa sociedade. Se me parece que o Estado, em Portugal, está, por vezes, onde não deveria estar, também se afigura que não há por aí muitos cidadãos e entidades (não estatais) que o possam substituir ainda – nos ganhos e nas perdas, claro.

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