(Português) Biografias

(Português) A leitura de biografias sempre me deu prazer. Umas autorizadas, outras não, autobiografias também, nelas se escondem pequenos detalhes de grandes acontecimentos históricos, reflexões que os precedem e comportamentos nem sempre compreendidos. Encomiásticas geralmente, nem por isso deixarão de interessar a quem as souber ler e integrar no seu contexto e aprofundar com o inerente intertexto.

Ao terminar a leitura, por estes dias, da biografia recentemente publicada do Pe. João Seabra da autoria de José Luís Ramos Pinheiro e de Raquel Abecassis – João Seabra à sua maneira – tive ocasião de encontrar extensamente o biografado, conhecido também como “padre da moda” (lisboeta, claro) no seu radicalismo exuberante, mas, também, pessoas que foram (e são) seus contemporâneos e de cujos itinerários desconhecia os detalhes, ou de que tinha apenas uma outra, vaga, perspetiva. Foi o caso de um retrato de vida de Marcelo Rebelo de Sousa que, em algumas pinceladas, aí aparece, ainda nos tempos de estudante: estudavam juntos, sendo que Seabra aproveitava do seu método de estudo e saber. Um dia ter-se-á fartado do expediente do amigo e quando João Seabra apareceu à sua porta certo dia, a empregada de Marcelo informou que “o menino Marcelo manda dizer que não está” (p.31). Mas é, sobretudo, o contexto social lisboeta – as intimidades relacionais, de classe, religiosas, os pequenos ou grandes poderes – que fazem desta biografia um livro curioso e que nenhuma história oficial conseguira recriar.

As personalidades de D. António Ribeiro, de D. José Policarpo, de D. Manuel Clemente e os caminhos que foi o deles, pelas “veredas do Senhor”, aí se adivinham, também, e nem tudo é cor de rosa. É melhor ler o livro…

Uma outra biografia recente (2018), escrita por Luísa Meireles – General Loureiro dos Santos, o que tem de ser tem muita força – trouxe-me também uma perspetiva ignorada de situações que, de resto, vivi como soube e pude, no contexto da Revolução de Abril.

Há que conhecer de perto as pessoas e a sua personalidade para alcançar um melhor domínio de certos factos e situações. Nesta biografia está o retrato social e psicológico, geralmente ignorados, de muitos dos militares e políticos da época e que, feita a leitura, se colocam de outros modos no fio da história. Afinal, às vezes, nem pela rama sabemos do que estamos a falar na urgência de sobre tudo ter opinião e de tudo criticar.

As biografias podem aproximar-nos dos outros no bem e no menos bem. Ajudar-nos a perceber que, no fim, somos todos mais iguais do que julgamos e que a glória e o infortúnio a todos acompanham um dia ou um outro e, ainda, que cada um de nós poderia ter estado lá, naquela esquina onde se esclarece o destino de uma vida.

Tentar perceber a Vida e as vidas que nela passam não é tarefa fácil e é aí que surge o valor desses textos. Mas não só neles, pois o quotidiano também é feito de segredos, de mentiras e de crimes inconfessáveis mesmo em apuradas biografias. Compreender o passado e o presente, como chegamos aqui e o que nos espera no futuro, passa, também, por caminhos que não vemos, mas sobre os quais fazemos os nossos percursos humanos. Refiro-me à atividade, geralmente desconhecida, dos serviços de informação (intelligence) dos Estados e ao seu património de conhecimento. Aí estarão – e não quero falar da espionagem política ou industrial – variáveis explicativas de muitos sobressaltos e angústias de hoje e de sempre. Se me refiro a estas problemáticas é porque e vejo a tomar, cada vez mais, lugar à cabeceira da nossa mesa e, aí, a procurar destruir o que resta da civilização.

Plantar macieiras é uma alternativa de vida. Por enquanto sublinho a relevância das biografias. Viver aleija.

  •   Rua de Ceuta, 118, 2º.
  •   4050-190 Porto
  •   +351 223 160 735
  •    +351 93 212 42 62
  •   antoniovilar@antoniovilar.pt
  •   avribeiro2013