(Português) Augusto Cid, Camarate e a História

(Português) Brevemente nos encontramos nos caminhos da política, mas em momentos fortes, e nunca deixamos de partilhar as angústias de um outro tempo, ligados à situação dos anos 1980 e ao trágico acontecimento de Camarate. Foi, com efeito, por Sá Carneiro que encontrei Augusto Cid, à procura dos caminhos da verdade que a tantos convinha esquecer.

Creio que mais ninguém, como Augusto Cid, fez tudo o que humanamente podia ser feito, na sua situação, para que a Justiça triunfasse face à mentira, ao ódio, aos interesses mesquinhos de muitos. É por isso que o lembro e devemos todos lembrar, agora que se foi do nosso convívio, finda a batalha terrena que cumpriu. Augusto Cid deixou, porém, um legado que está num baú ainda cheio de perguntas fortes – e também de respostas escondidas ou desconsideradas – relativamente à fatídica noite de 4 de dezembro de 1980 em que Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e outros perderam a vida.

Um aceno de reconhecimento a Augusto Cid, na altura em que nos deixa ultrapassando os limites da terrena ignorância é, também, a ocasião para lembrar uma causa maior da sua vida que ficou evidenciada, nomeadamente, no livro “Camarate”, de 1984, e que bem merece ser lido, ou relido. Que ninguém se iluda: certas engrenagens políticas estão vivas nos caminhos da humanidade, ainda que a hibernar.

Respigo – porque atuais ainda – umas linhas deste livro (p.11): “As autoridades continuarão a guardar ciosamente o segredo sobre o atentado que vitimou Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e quantos com eles viajavam. Isto porque as conivências no gigantesco encobrimento que desde logo pôs em marcha abrangem a quase totalidade da actual classe política. Conivências feitas de silêncios envergonhados, de atitudes de demissão e de um alheamento e desinteresse chocante e inexplicável.”

Sei bem que princípios jurídicos relevantes, gerais e abstratos, determinaram o fim dos procedimentos judiciários relativamente àquela factualidade e aos seus agentes e mandantes, mas acredito, também, que a História não os absolverá um dia, ainda que longe ele venha. A procura da verdade, que foi causa maior de Augusto Cid, terá de ter continuidade até para se perceber o que move, afinal, os destinos de um povo. Essa narrativa, a escrever, não poderá passar ao lado do que deveria ter sido – e não foi – a análise que cabia aos serviços de informação da república (intelligence). Só eles, decerto, poderiam (deveriam) apreender a situação que se desenhava na altura em Portugal e o respetivo contexto na correlação de forças e de interesses internacional. De resto, a História, inteira, profunda, nem neste caso, nem na generalidade dos grandes eventos políticos, poderá ignorar os contributos que esses serviços podem trazer ao respetivo esclarecimento. Este é um aspeto que, julgo, ainda vive na imaturidade da escrita sobre o passado. Mas que não deverá ser escamoteada, pois nem tudo o que parece é e o que é nem sempre, ou raramente, vem à luz do dia.

Estamos juntos como antes, Augusto Cid.

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