(Português) As Férias de Verão

(Português) Os dias de verão que estamos a atravessar conferem-nos a possibilidade de, além do mais, sermos mais genuínos perante os outros e, sobretudo, mais autênticos face à nossa identidade. Há que celebrar essa oportunidade após tempos difíceis quotidianamente vividos antes num mundo muito complexo e, também por isso, exigente e injusto.

O corpo humano reclama o ócio, que é o contrário de negócio (nec otium) para se regenerar, no que vai um outro e mais são combate pelo corpo – mens sana in corpore sano – que não passa por equívocos modos de talhar os corpos em corridas para ginásios, ou terapias “mata-cavalos” nos dias ou meses que precedem a praia e, muito menos, por cirurgias estéticas meramente dilatórias. Caberá sublinhar que o corpo humano não é um envelope onde se aloja a mente, num dualismo ultrapassado, mas um todo, único, inteiro. E dele – todo, inteiro, único – há que cuidar. Inglórios os dias que levam alguns, ao fim das férias, a dizer que vêm mais cansados do que tinham partido. Uma outra expressão, afinal, de servidão voluntária!

Ao redor deste tempo de ócio possível, caminham, também, velhos e novos fantasmas que corrompem o nosso estar social e o nosso ser pessoal. Como ignorar as desigualdades sociais que fazem de uns reis e de outros escravos? As dificuldades que cerceiam o usufruto de direitos humanos que não deveriam estar em causa: a saúde, a habitação ou a educação à frente de outros? Estão em questão pessoas como nós que também têm direito ao ócio; porventura até mais necessidade do que muitos outros.

As sociedades ocidentais, alegadamente democráticas, colocaram o indivíduo no centro de tudo. E quem pode aproveita; quem não pode sofre à mingua. Porém há coisas em que urge refletir pois, parafraseando Pascal, entre cada um de nós, o céu e o inferno, não há senão um outro homem – que é a coisa mais frágil que existe. Restringir o ócio (as férias, pelo menos) ao culto do corpo físico de cada um é um fétiche que a sociedade de consumo (Baudrillard) impulsiona enquanto coisa que tem um valor mercantil – o corpo que se exibe e vende. Será que não passará por aqui a fotografia que vamos tirar nos próximos dias e mostrar, depois, nas diversas redes sociais?

Quando, nestes mesmos dias, vários e cruéis fogos florestais destroem o país e o seu povo poderá ter-se como utopia o que deixo atrás escrito. Vou, porém, insistir e ilustrar, se o conseguir, como as utopias são tão necessárias neste tempo louco – utopias e mitos também. Em 2017 ardiam matas e morriam pessoas em momento que deveria ser de ócio, de paz, de renovação humana. Vi a tragédia pelas televisões, insaciáveis face à dor, ao sangue, à morte. Mas tive, também, a felicidade de olhar uma velha senhora que, decerto por descuido, as câmaras televisivas não filtraram: de preto, em idade corroída por uma vida dura, no seu vestir de negro, ao lado de uma habitação (?) destruída pelo fogo, respondeu ela a uma jovem jornalista que lhe perguntou o que seria dela agora que ficara sem nada: “agora sou livre”. Resposta esta jornalisticamente incorreta, mas que me suscitou reflexão e, decerto, a outros também.

Oxalá que todos tenham umas férias descansadas na plenitude do seu ser com os outros. Valerá a pena, ao menos, tentar a dessacralização do corpo físico para além da mera luta por um lugar ao sol, individual, vivida em submissão aos cânones de consumo de beleza correntes.

A grande, a maior questão passará pela resposta a uma simples pergunta: “eu tenho um corpo?”, ou, “eu sou um corpo” que não se irá jamais separar do destino dos outros que comigo partilham este espaço, a Terra?

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